quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Falemos de potencialidade...

Um qualquer português em viagem deslocando-se através da auto-estrada do Sul, em direcção ao Norte, cedo começa a avistar algo diferente que se impõe na paisagem.

Pouco depois de deixar os pinhais da zona de Alcácer, e ainda antes de entrar num território marcado pelas extensas vinhas, começa-se a observar um castelo incomum no alto da serra da arrábida. Começa por parecer distante, mas cedo se denota que essa distância é mera ilusão e, à medida que se progride aparece a noção de que é esse castelo que impera neste território, onde as vinhas se desenvolvem por entre um território urbano que caminha pontualmente, a grande velocidade, para a suburbanidade. Cedo, o viajante se começa a interrogar de que se trata: que castelo é aquele? Que vila é aquela? Valerá a pena visitar? O que me poderá oferecer? À medida que as perguntas vão sucedendo, sem resposta, a distância vai passando e, no final, foi mais um possível visitante que Palmela perdeu. Tal situação acontece também quando se faz o percurso contrário em direcção ao Sul em que, ainda na Ponte Vasco da Gama, se começa a observar Palmela, como o ponto que mais se destaca em toda a Península de Setúbal. Tal facto é ainda mais notório quando o sol se põe, e Palmela surge como que de “traje de gala”, produzida de maneira a que os focos de iluminação destaquem todo o seu esplendor.

São contudo situações como estas que não deveriam passar em branco devido à falta de divulgação das potencialidades; devido a Palmela não se dar a conhecer. Será que este mesmo viajante se soubesse a priori todo o património que Palmela possui, ou que as suas origens remontam às épocas mais distantes, sendo os vestígios arqueológicos mais antigos atribuídos ao período do Paleolítico médio, sendo a vila ocupada sucessivamente ao longo de todos os períodos que foram deixando a sua marca; iria agir da mesma forma, e não iria fazer um desvio para visitar Palmela? Para isso é apenas necessário dar a conhecer às pessoas o que existe de positivo, quer em Palmela, quer na região. A sua história, as suas tradições, o seu património histórico, o seu património natural, a sua gastronomia, e todo um conjunto de ofertas que Palmela tem para os seus visitantes. Trata-se de saber aproveitar as potencialidades que estão à vista de cada um. Trata-se de divulgação.

Desta forma torna-se rapidamente óbvia a necessidade de criar antes de mais, um conjunto de mecanismos e iniciativas que funcionem como suporte de todo este programa e que trabalhem neste sentido, ajudando a valorizar todo este conjunto cultural de Palmela. Contudo, é também certo que, mesmo com as suas potencialidades não valorizadas, Palmela recebeu em 2008, cerca de 11000 turistas, sendo destes, cerca de 6500 nacionais e cerca de 4500 estrangeiros. Desta forma é possível observar que Palmela tem um enorme potencial para um turismo temático, mas é também necessário interrogarmo-nos: pois se Palmela com todo o seu potencial ainda em bruto conseguiu receber tal número de turistas, quantos mais conseguirá atrair se forem criadas as devidas condições? Se as potencialidades já existem, o que é necessário para atrair turistas a Palmela?

A falta de divulgação é o motivo que em grande medida está por detrás de tudo isto, e que deixa Palmela continuar a ser desconhecida para muitas pessoas, tal como o viajante à pouco referido. Talvez se houvesse divulgação, esse indivíduo iria agir de maneira diferente, e talvez pensasse que, visto que estava perto, porque nao ir visitar Palmela? Não seria interessante conhecer Palmela não só porque é o local que mais se destaca morfologicamente na Península de Setúbal, e que é visivel desde Alcácer-do-Sal, Santarém, ou Beja, mas também por toda a sua cultura, assumindo-se como local de referência em toda a margem sul de Lisboa?

Poderia Palmela utilizar mecanismos tal como a campanha produzida pelo Algarve, que o transformou numa marca, mas que simultaneamente, ao chegar, apercebemo-nos daquela imagem, como que de uma espécie de Hollywood colorida se tratasse. Também, ao andarmos em qualquer transporte público em Londres, Berlim, ou outras capitais europeias, facilmente encontramos painés de diferentes tamanhos que nos atraiem pelas suas paisagens e por um conjunto de letras coloridas a dizer “Allgarve”. Este método é bastante simples, e passa apenas por encontrar as potencialidades da região, divulgando-as a um público alvo, trazendo posteriormente as mais-valias para a região. No caso de Palmela também seria possível elaborar algo assim, talvez para um público-alvo nacional, mas algo bastante abrangente.

Porquê não utilizar também mecanismos utilizados noutras tantas terras do país, que passam pela criação de festivais temáticos de diferentes tipos, tais como medievais, de chocolate, entre inúmeros outros com as mais variadas temáticas que atraiem um grande número de turistas e, cuja tendência é para aumentarem. Estes festivais são, muitas das vezes, realizados em terras com potencial mais limitado do que Palmela, mas que dão valor ao que possuem e lutam para criar um “novo conjunto de tradições”. Então qual o porquê de uma terra como Palmela, com todo o seu potencial nao possuir nenhuma destas iniciativas? Analisando por exemplo as Festas das Vindimas, que a nível nacional são das maiores festas desta temática, destinam-se a que público? Talvez os residentes do concelho, e um pequeno conjunto de pessoas dos concelhos circundantes saibam quando elas ocorrem, mas deveriam ser divulgadas a uma maior escala. Sendo das maiores festas deste tipo a nível nacional, deveriam ter uma divulgação ao mesmo nível. Seria super gratificante, um qualquer residente do concelho de Palmela, ao deslocar-se a Lisboa deparar-se com um cartaz informativo das Festas das Vindimas, pois iria sentir que a sua terra tinha algo de que se pudesse orgulhar, algo que não existiria em mais nenhum lugar. Quantas não são as pessoas que todos os dias se deslocam a Lisboa para trabalhar? Será que não iria existir pessoas de Lisboa que gostassem de visitar as Festas das Vindimas e se deslocassem às mesmas?

Palmela tem o privilégio de ser um objecto único na sua região, mas o que se observa é que essas particularidades que fazem dela única estão a desaparecer, caminhando cada vez mais para a suburbanidade. Com um investimento turístico que se destina na sua maioria a um público estrangeiro a ser construído aqui tão próximo, em Tróia, e que irá atrair um conjunto de pessoas cujo único objectivo durante a sua estadia é o turismo, torna-se imperial inverter esta tendência e explorar toda a dimensão das potencialidades culturais, divulgando-as, bastando para isso criar um plano de iniciativas culturais a curto e médio prazo, que valorizem as singularidades que esta terra possui. Tudo isto pode ser conseguido com a aposta e divulgação de um turismo temático no qual Palmela se evidencie.

Alexandre Heleno
Estudante de Arquitectura
Pinhal Novo

0 comentários: