Nota preliminar
O concelho de Palmela possui uma riqueza natural, paisagística, arqueológica e arquitectónica muito elevada. São necessárias políticas, a nível concelho que promovam a divulgação, a valorização, a investigação e a protecção deste património.
O património arqueológico é o legado material da História de uma população, o seu conhecimento e a sua divulgação são importantes para melhor compreender um povo. Apesar de importantes, não são apenas os costumes, produtos tradicionais, o património edificado que fomentam o turismo. Cada vez mais há um interesse pelo conhecimento da história material das cidades ou vilas, pelos seus visitantes.
O património natural e arqueológico
1 – O património natural
O concelho de Palmela apresenta uma grande diversidade paisagística: a serra e a planície. Cada uma destas variantes tem um clima diferente, que se reflecte na diferente vegetação e fauna que cada uma delas apresenta.
2 – O património geológico
A geologia do concelho de Palmela é constituído maioritariamente por calcários do Paleogénico e do Miocénico, na Serra do Louro e do Jurássico, no vale da Ribeira da Corva e por areias feldspáticas do Pliocénico e por conglomerados do Plistocénico, em toda área plana do concelho. Uma característica importante da geologia de Palmela e que se constitui como um marco na paisagem é a escama de Palmela, onde se situa o castelo.
3– O Património arqueológico
A arqueologia estuda o passado do Homem na ausência de documentos históricos, através da sua cultura material. A arqueologia assume-se como importante para melhor compreendermos a história da ocupação humana no concelho de Palmela, que tem um património arqueológico de grande valor de que são exemplos o Camarral, os hipogeus da Quinta do Anjo e o Castro de Chibanes, que conjuntamente com outras importantes estações arqueológicas abarcam um período de tempo desde a Pré-História até ao período Moderno.
Actualmente estão inventariados 102 sítios arqueológicos. Destes nenhum está atribuído ao Paleolítico, apenas existem alguns da Pré-História Indeterminada. Pela geomorfologia e geologia do concelho é muito provável que existam alguns locais com ocupação paleolítica que ainda não estão referenciados, pois ainda não foi realizado um projecto de investigação e levantamento arqueológico suficientemente desenvolvido e transversal a todas as áreas da arqueologia, que permita desenvolver uma carta arqueológica do concelho.
As cartas arqueológicas são um instrumento fundamental na divulgação do património de um concelho, nos estudos de investigação arqueológica e no desenvolvimento dos PDM´s dos concelhos.
Os sítios arqueológicos mais importantes:
Castro de Chibanes:
Localizado na Serra de Louro, o Castro de Chibanes alia, ao seu enorme interesse científico e cultural, um enquadramento paisagístico de rara beleza, de onde se pode avistar o Sado e o Tejo.
A mais antiga ocupação humana de Chibanes iniciou-se há cerca de 4800 anos, durante a Idade do Cobre e teve uma ocupação até ao final do Horizonte Campaniforme (há cerca de 3700 anos). Mais tarde, viria de novo a ser utilizado como local de residência em períodos de grande instabilidade sócio-política, como foram a II Idade do Ferro (sécs. III-II a.C.) e o período proto-romano, (sécs. II-I a.C.). Nessa altura ocorreu a construção de uma fortificação associada à urbanização do espaço intra-muros, e a sua reformulação, sob influência itálica, nomeadamente através do acréscimo de estruturas “abaluartadas”, no extremo ocidental do povoado.
O Castro de Chibanes é o único exemplo conhecido e visitável de uma fortificação calcolítica em toda a Península de Setúbal.
Os Hipogeus da Quinta do Anjo
Na Quinta do Anjo existem quatro Grutas Artificiais que foram utilizados como monumentos funerários durante o período do Neolítico Final, há cerca de 4500 anos.
Foram descobertas por Carlos Ribeiro (importante geólogo e considerado como o “pai” da arqueologia pré-histórica portuguesa) ainda no século XIX. Mais tarde, em finais do século XIX, inícios do XX foram estudadas por A. Mendes, A. José e A.I. Marques da Costa.
Estes monumentos pré-históricos foram escavados na rocha e são formados por uma câmara circular, por uma antecâmara e por um corredor. Foram encontrados diversos vestígios ósseos humanos e vários artefactos da época, como pontas de seta em sílex, machados de pedra polida e placas de xisto decoradas e taças cerâmicas campaniformes decoradas. Algumas destas últimas foram, pela primeira vez ali encontrados e ficaram conhecidas para a ciência como “Taças Topo Palmela”.
Camarral
O Camarral é uma jazida do Mesolítico, datado entre os 9000 e os 7500 e localiza-se nas imediações do actual núcleo urbano de Volta da Pedra. Ali foram vários utensílios compósitos como zagaias e flechas, essencialmente de sílex.
Casal da Cerca
O Casal da Cerca é um povoado neolítico antigo com cerca de 6000 anos que ocupou uma extensa área da vertente norte da colina de Palmela. Dos materiais encontrados importa sublinhar a presença da cerâmica e os artefactos líticos, em geral de sílex.
O Zambujalinho
O sítio arqueológico do Zambujalinho ocupa uma extensa área (cerca de 13,7 há), na margem esquerda da Ribeira da Marateca, onde se inicia o canal de Águas de Moura. Trata-se de mais um centro produtor de ânforas do Estuário do Sado, subsidiário da actividade fabril de Tróia de Setúbal, no período Romano.
Tal como noutros fornos da região, no Zambujalinho fabricavam-se ânforas (recipientes muito vulgares no período romano e que servia para o transporte fluvial e marítimo de preparados piscícolas). Neste caso as ânforas do Zambujalinho seriviam para o transporte dos produtos produzidos em Tróia, com destino aos vários pontos do Império Romano.
Neste sítio, para além das anforam foram também encontrados objectos de uso quotidiano diverso, tais como pratos, taças, bilhas, pregos, lucernas, elementos de adorno, moedas. Até ao momento foram definidas no Zambujalinho áreas distintas de ocupação, em termos funcionais: a necrópole, o núcleo habitacional e a área provável de olaria.
Propostas para uma política de valorização do
património do concelho
1 - Elaboração da carta arqueológica. Uma carta arqueológica é a melhor forma de conhecer globalmente o património arqueológico de um concelho e, desta forma torna-se um instrumento fundamental na política da sua valorização, divulgação, salvaguarda e protecção. Por outro lado, as cartas arqueológicas são muito importante nos trabalhos de revisão dos PDM's.
2 - Contratação de um arqueólogo. Palmela é dos poucos concelhos que não tem um arqueólogo no seu quadro de pessoal. A contratação de um arqueólogo é fundamental para a protecção valorização e divulgação do património arqueológico do concelho.
3 - Desenvolvimento de um Museu Municipal de Palmela. No seguimento de uma política de valorização, protecção e divulgação do património etnográfico, arqueológico, natural e histórico é fundamental a constituição de um museu municipal, que poderá ser mais um foco de desenvolvimento local.
4 - Acção de protecção dos Hipogeus da Quinta do Anjo, em coordenação com o IGESPAR. Os Hipogeus (ou grutas artificiais) da Quinta do Anjo são um importante património do concelho, com uma importância científica a nível nacional e internacional.
5 - Desenvolvimento de circuitos de visitas aos sítios mais importantes. A elaboração de percursos pedestres de várias áreas do concelho, onde se mostre o património concelhio é importante para atrair turistas.
6 – Constituição de uma base de dados com o acerco arqueológico do concelho, onde se dispunha de informação da localização dos diferentes materiais que pertencem a museus nacionais, como o Museu Nacional de Arqueologia e o Museu Geológico.
7 – Solicitar a esses museus autorização para se fazerem réplicas dos materiais mais significativos do concelho, replicas estas que seriam expostas no museu Municipal, atrás referido.
Silvério Figueiredo (Olhos de Água)
arqueólogo


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